Terceiro Setor

Você já foi atendido por uma Organização Social e provavelmente não sabia

Matheus Cardoso Coelho · 08 de julho de 2026 · 5 min de leitura

O hospital público onde a sua família foi socorrida. A UPA do bairro. O ambulatório de especialidades. O centro cultural onde você levou as crianças no fim de semana. A escola técnica.

Muitos desses equipamentos não são geridos diretamente pelo Estado. São geridos por organizações sociais — entidades cujo nome a maior parte dos usuários nunca ouviu.

Este artigo não defende nem ataca o modelo. Descreve o que ele é, porque a discussão pública sobre o tema costuma ocorrer sem que se estabeleça, antes, do que se está falando.

O que é uma organização social

Organização social é uma qualificação, não um tipo societário.

Trata-se de entidade privada sem fins lucrativos — usualmente associação ou fundação — que, atendendo a requisitos legais, recebe do poder público a qualificação como OS e passa a poder celebrar contrato de gestão para executar atividade em áreas determinadas: saúde, educação, cultura, ciência e tecnologia, meio ambiente, entre outras previstas na legislação aplicável.

Dois pontos que a expressão "sem fins lucrativos" costuma obscurecer:

Não significa que a entidade não tenha receita. Tem, e frequentemente de vulto. Significa que o resultado não pode ser distribuído a dirigentes, associados ou instituidores — deve ser integralmente aplicado no objeto social.

Não significa que a entidade não deva ser eficiente. Ao contrário: o modelo pressupõe cobrança por resultado.

O contrato de gestão

É o instrumento que vincula a entidade ao poder público.

O contrato de gestão define o objeto — a unidade ou o serviço a ser gerido —, as metas quantitativas e qualitativas, os indicadores de desempenho, o valor e o cronograma dos repasses, as obrigações de prestação de contas e as hipóteses de sanção e de rescisão.

A entidade não passa a ser dona de nada. O prédio permanece público. O equipamento permanece público. O serviço permanece público, gratuito e universal, sujeito às regras do sistema em que se insere. O que a entidade assume é a gestão da operação, sob supervisão do órgão competente.

E a Administração não se afasta: ela supervisiona, avalia o cumprimento das metas, fiscaliza a aplicação dos recursos e responde pela política pública, que continua sendo sua.

O que uma OS não é

Não é empresa. Não distribui lucro, não tem sócio que embolsa resultado, não tem quotas negociáveis.

Não é privatização. Privatização é transferência de titularidade de patrimônio ou de serviço ao setor privado. Aqui não há transferência de titularidade: o serviço continua público e o Estado permanece como titular da política.

Não é terceirização comum. Na terceirização, contrata-se atividade específica — limpeza, vigilância, alimentação. No contrato de gestão, a entidade assume a gestão integral da unidade, com responsabilidade por metas e resultados assistenciais.

Não é ausência de controle. É o oposto, como se verá adiante.

Por que o modelo existe

A justificativa central é a agilidade operacional.

Uma unidade de saúde precisa contratar profissional em prazo curto para não fechar leito, comprar insumo com rapidez para não interromper procedimento, remanejar equipe conforme a demanda sazonal. O regime de direito público, concebido para garantir impessoalidade e controle, tem ritmo próprio e nem sempre compatível com essa necessidade.

A entidade qualificada opera sob regime jurídico distinto: contrata pela CLT, adquire por regulamento próprio de compras aprovado e publicado, e responde por resultado.

Em contrapartida, a cobrança é objetiva. Não cumpriu meta, responde. Não prestou contas adequadamente, responde. Descumpriu o contrato de gestão, pode perder a gestão da unidade e a própria qualificação.

O controle é pesado — e é pouco conhecido

Esta é a parte que costuma surpreender quem conhece o modelo apenas pelo noticiário.

Uma organização social presta contas:

  • ao órgão supervisor do contrato de gestão, periodicamente, com relatórios de execução física e financeira;
  • ao Tribunal de Contas competente, que fiscaliza a aplicação dos recursos públicos repassados;
  • ao Ministério Público, que exerce o velamento das fundações e atua na tutela do patrimônio público;
  • a auditorias internas e externas, conforme previsto no contrato e no estatuto.

Além disso, os atos de seus dirigentes são escrutinados, e o dirigente responde com o próprio patrimônio quando caracterizado abuso, desvio de finalidade ou confusão patrimonial.

Some-se o regime de transparência: publicação de regulamento de compras, divulgação de contratações, prestação de contas acessível.

Não é o cenário de ausência de controle que às vezes se imagina. É um dos arranjos mais fiscalizados da administração indireta da política pública brasileira.

O que falta no debate

O modelo tem críticas legítimas, e elas merecem discussão séria: questões sobre seleção das entidades qualificadas, sobre a real comparabilidade de custos com a gestão direta, sobre a qualidade da fiscalização exercida, sobre a rotatividade de equipes na transição entre contratos.

Nenhuma delas se resolve por adjetivação.

O que enfraquece o debate público é a ausência de duas distinções básicas:

A crítica ao modelo não se confunde com a crítica à sua execução. Um contrato de gestão mal fiscalizado é problema de fiscalização, não necessariamente de desenho institucional. E um desenho institucional discutível não é redimido por boas execuções isoladas.

Milhares de entidades não são uma só. O tratamento indistinto — a irregularidade de uma entidade lida como característica do setor — inviabiliza qualquer análise útil.

Enquanto o debate se dá nesses termos, milhões de brasileiros são atendidos, todos os dias, por instituições cujo nome desconhecem e cujo funcionamento não é explicado a eles.

Conclusão

O terceiro setor não é coadjuvante da política pública brasileira. Em muitos lugares, ele é quem a executa — com dinheiro público, sob contrato, com metas e sob fiscalização.

Compreender o arranjo é condição para discuti-lo com seriedade, seja para aperfeiçoá-lo, seja para questioná-lo.

E, para quem dirige uma dessas entidades, é condição para algo mais imediato: entender que a segurança institucional depende de governança documentada — do estatuto às atas, da prestação de contas ao regulamento de compras.


Matheus Cardoso Coelho é advogado do NPC Advogados.

Este conteúdo tem caráter meramente informativo e não constitui consulta ou parecer jurídico. Cada caso deve ser analisado individualmente por profissional habilitado.

Publicação em conformidade com o Provimento nº 205/2021 da OAB.

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Matheus Cardoso Coelho

OAB/SP 426.931

Especialista na área Cível, atua em Direito Civil e Empresarial, contratos, reparação de danos, Direito do Consumidor e cobrança, sempre com condução técnica, cuidadosa e objetiva de cada demanda apresentada ao escritório.

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